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Geração canguru -Eles não querem sair da casa dos pais. E agora?

*Entrevista com Dra Olga Inês Tessari

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Os "filhinhos da mamãe" têm muito mais a perder do que a ganhar com isso, afirma especialista

Para a psicoterapeuta paulista, Olga Tessari, a geração canguru nasceu de uma projeção de liberdade e conforto - que homens e mulheres gostariam de ter tido nos anos 1970, por causa da repressão, mas que não faz sentido nos dias de hoje e que deve ser abolida imediatamente.

Quem não se lembra da cantora Elis Regina dando voz aos conflitos e incertezas de uma geração inteira com a música, Como Nossos Pais? E como cantar a mesma canção 30 anos depois se o jovem não vive mais como os pais e sim com os pais? Estamos falando da geração canguru. Bem aceita pela sociedade, essa geração engrossa as estatísticas de um fenômeno mundial: filhos adultos que adiam, ao máximo, a saída da casa dos pais, do colinho quente da mãe, enfim, do lar doce lar.

"Em tempos de liberdade total, não faz mais sentido ter que se mudar para conquistar espaço e privacidade. O que parecia estranhíssimo há 30 anos - marmanjos com mais de 25 anos na barra da saia da mãe - hoje é culturalmente aceito. Numa boa. O novo arranjo passou a vigorar de forma natural a partir do momento em que os sonhos, os objetivos e as bandeiras de independência tradicionais dos jovens - autonomia financeira, casa própria, casamento, filhos - deixaram de ter o mesmo peso de antes", argumenta outro especialista em comportamento humano.

Ainda segundo a psicoterapeuta, a super proteção gera uma dependência emocional e financeira que destrói a auto-estima de moças e rapazes, que se sentem incapazes de lutar sozinhos. Eles nem sequer cogitam a possibilidade de enfrentar a vida lá fora, se encontram tudo dentro do próprio quarto, para onde ainda podem levar a namorada, por que passar pelo desgaste de pagar as próprias contas, lavar roupas ou fazer comida? "A casa é bem grande, tanto que às vezes nem vejo meus pais, só na hora das refeições, tenho muita vontade de ter meu canto, mas não sei se conseguiria renunciar a tranqüilidade de estar aqui, também tenho medo de fracassar", diz o advogado Antônio (nome fictício), 33, que até hoje não conseguiu manter um relacionamento duradouro, nem pensar em casamento ou filhos. "Sou totalmente despreparado para isso".

Ele mesmo se auto declara Peter Pan. Fala em tom de brincadeira, mas no fundo, o que sente é um imenso vazio ao observar que a maioria dos amigos já conquistou o próprio espaço na sociedade. Tem casa própria, esposa (ou está quase chegando lá), alguns têm até filhos, carro e apesar das dificuldades, não precisam mais seguir as regras dos pais.

Diferentes dos pais

Logo a geração dos anos 70, caracterizada por lutas pela independência, conseguiu estragar os próprios filhos. Nem todos, é importante dizer, já que alguns jovens escolheram romper com esse ciclo. Nos Estados Unidos e nos países do norte da Europa, ao contrário, é comum os filhos saírem cedo, seja para estudar em uma universidade, seja para trabalhar. Aqui no Brasil a situação se inverteu. Mas nem o alto custo de vida, o desemprego ou a violência devem servir de desculpas para impedir a libertação. "Legal são os pais que acreditam que os filhos são do mundo, não têm uma relação de amor egoísta, mas realmente preparam para a vida, não é fácil, mas quem disse que deveria ser?".

Curtir o calorzinho do colo da mãe é maravilhoso, mas morar sozinho não significa perder esses bons tratos. O medo de enfrentar o novo e assumir responsabilidades é muito maior do que a realidade. Mas, como no mundo animal, tudo tem um limite: nem os verdadeiros cangurus ficam na bolsa marsupial por mais de um ano.

Matéria publicada no site Gazeta Digital por Rose Domingues em 04/05/2009

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